Shabê Furtado fala sobre seu mais recente disco e a cena rap de BH
- Bruno Lisboa
- há 1 dia
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Aos 51 anos, MC Shabê Furtado carrega na voz e na escrita o peso de uma trajetória marcada por atravessamentos sociais, afetivos e estéticos que se confundem com a própria história do rap periférico em Belo Horizonte. Filho de mãe solo, trabalhador desde a infância e forjado nas margens — “mais um filho pardo sem pai, sempre periférico” —, o artista construiu sua identidade a partir de experiências que vão da dureza material ao refúgio simbólico na literatura, no cinema e na cultura hip hop.
Seu mais recente disco, O Melhor MC de Todos os Tempos da Rua Sinval Ladeira Neves Último Quarteirão Lado Par, nasce dessa soma de vivências e inquietações, operando entre ironia, crítica e a observação do cotidiano. Inspirado provocativamente pela ideia de auto-legitimação inflada — referência direta ao título irônico dos Titãs, “A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana” —, o trabalho tensiona noções de grandeza e relevância em tempos de redes sociais e validação superficial. “Quis fazer essa brincadeira séria, pontuando nossa insignificância, criticando essa ilusão que muita gente compra como verdade”, afirma.
Musicalmente, em seu segundo disco Shabê se constrói de forma orgânica, partindo quase sempre da ideia ou do tema, mas aberto a interferências da sonoridade e das parcerias — com destaque para o produtor Preto C, cuja escuta e sensibilidade ajudam a dar forma a um trabalho plural. O disco também se destaca pelas participações especiais que ampliam sua diversidade sonora e estética: Michelle Oliveira empresta sua voz às faixas “Viagem” e “Pote de Ouro”, enquanto Matéria Prima assina voz e letra em “Vagabundo Alado Que Não Voa”. Em “Felicidade é Circular”, Rogério das Santas contribui com voz, violão e composição, e Elisa de Sena marca presença vocal em “Mistério”. A base instrumental ganha ainda mais corpo com o baixo de Juliano Nunes nas faixas “Mistério”, “Balanço e Reflexão” e “Da Porta Pra Fora”. Já Heberte Almeida (Pelos) participa com voz e violão em “Namoro Virtual”, e Rafael Manteiga imprime sua força criativa em “Da Porta Pra Fora”, com voz, guitarra e letra, reforçando o caráter colaborativo e plural do álbum.
Repleto de referências que vão de Douglas Adams a Saramago, de filmes como Blade e Oldboy ao rap dos Racionais e ao rock da Plebe Rude, o álbum reflete um imaginário construído tanto no consciente quanto no inconsciente. “Isso foi o meu refúgio, sempre vai brotar na minha arte”, resume.
Sem ilusões quanto ao mercado — “nenhum artista sobrevive só da sua arte em BH” —, Shabê Furtado mantém os pés no chão e o foco no essencial: conexão real com o público. Para ele, lotar um show com 150 pessoas já é vitória. Mais do que números, seu novo trabalho busca ressoar de forma simbólica e política no indivíduo. “Quero tocar, quero que me ouçam e comentem”, diz. E é justamente nessa escala humana, direta e honesta, que sua arte encontra força. Leia abaixo a entrevista na íntegra.
Ao longo da sua trajetória, você construiu uma identidade muito singular dentro do rap. Olhando em retrospecto, quais experiências — pessoais, territoriais e artísticas — foram decisivas para moldar a voz que você tem hoje, tanto estética quanto politicamente?
Olha, desde a infância, as dificuldades financeiras trazendo diversas limitações, ser filho de mãe solteira (mais um filho pardo sem pai), trabalhar desde cedo (aos 11 anos) para ajudar em casa, sempre periférico…talvez seja o alicerce para a identificação com o RAP. Tem a experiência com o Hip Hop Dance fazendo parte dos Caçadores de Estilo, me apresentando pra cultura. Junta-se aí influências diversas tanto da música quanto na literatura e cinema. Na infância e adolescência sempre me senti meio que a margem, meio rejeitado. Busquei abrigo na leitura e posteriormente o cinema agregou também. Outra situação basilar foi a perda do meu olho direito. Estava em uma casa de eventos no Guarani, fui ao banheiro e tinha uma bomba debaixo da pia que explodiu na hora que abaixei para lavar o rosto. A pia explodiu e os estilhaços me cortaram por todo o corpo e, principalmente, no meu rosto. Voltando às influências, iam de Douglas Adams do Guia do Mochileiro das Galáxias, a Saramago com o Evangelho Segundo Jesus Cristo (influência no agnosticismo), de Blade a Oldboy (o coreano), de Racionais a Plebe Rude. Isso é só um recorte, são muitos os porquês que eu acredito me moldaram no artista que sou hoje.
Belo Horizonte aparece na sua obra não só como cenário, mas como linguagem e mentalidade. Como a cidade atravessa sua forma de escrever, pensar e performar — e o que nela você sente que ainda não foi dito no rap?
Eu comecei a trabalhar de office Boy com 11 anos de idade, isso lá em 86. Quando eu fiz 14 trabalhava 8 horas por dia, não existia isso de menor aprendiz. Rodei essa cidade trabalhando e frequentando bailes e casas noturnas. Fui Gerente da Phoenix (casa de shows) em 97. Por não ter grana e nunca conseguir ter o equilíbrio financeiro, moramos em vários bairros. Pompéia, Horto, Concórdia, Ribeiro de Abreu, São Gabriel, Guarani meu país. Belo Horizonte é uma pequena cidade grande que eu amo e odeio na mesma proporção. Clichê né, mas é isso. Seu provincianismo talvez tenha achatado muitos futuros artistas, eu senti isso. Ao mesmo tempo, talvez por conhecê-la também e também por conhecer pessoas muito acolhedoras, de alguma forma me motivaram. Temos um problema regional onde a arte autoral é muito pouco valorizado, que se reflete na falta de espaço. Belo Horizonte é lar, quando viajo e volto para cá sinto isso e minhas experiências aqui de alguma forma me dão uma certa segurança. Talvez falte ao Rap ser mais incisivo em relação a essa províncianice e abismos sociais e seu calor humano.
O título do seu novo álbum carrega ironia, territorialidade e uma espécie de provocação conceitual. Que reflexão você quis gerar ao tensionar ideias como grandeza, pertencimento e anonimato nesse nome tão específico?
Titãs, “ A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana “ foi o start para o nome, mas eu entendo que essa auto-legitimação, em todas as frentes mas principalmente no RAP, é meio mentiroso. Tudo é potencializado nas redes sociais causando um produto da superficialidade. Nada contra, só que tá muito e piorando. Então quis fazer essa brincadeira séria, pontuando minha, a nossa insignificância, criticando essa ilusão que muita gente compra como verdade. Lembrando que o disco traz outros assuntos e influências de outros gêneros musicais.
Seu disco usa o cotidiano para abordar temas delicados. Como você enxerga o riso como ferramenta crítica dentro do rap — e até que ponto ele potencializa ou desarma a força da denúncia?
Algumas músicas do disco são bem humoradas e ácidas ao mesmo tempo, outras nem tanto. Entendo que usar da ironia aplicada no humor, só potencializa. Na faixa da “Porta pra Fora”, por exemplo, com a participação magistral do Rafael Manteiga o papo é reto e sem massagem. “Pote de Ouro” traz a dificuldade do dia a dia, do trabalhador formal, do artista independente, com leveza, mas a crítica tá escancarada. E por aí vai.

No processo de composição, o que vem primeiro para você: a ideia, a imagem, a métrica ou a sonoridade? E como esse processo se transformou especificamente na construção desse álbum?
Quase sempre a ideia da letra vem primeiro. O tema, que pode mudar ao longo da continuidade da escrita ou na música. Às vezes, escuto um som e me chega aquela vontade de criar dentro ou próximo da sonoridade. A ideia desse álbum veio na pandemia logo após o meu álbum solo de estreia “Visão Monocular”. Já tinha algumas letras escritas, ainda não finalizadas e o processo foi natural, como o do primeiro álbum. As parcerias também influenciaram, alguns trouxeram músicas quais eu adaptei.
A parceria com Preto C parece central no resultado do disco. Como se deu esse diálogo criativo entre vocês e de que maneira a produção influenciou o direcionamento conceitual e sonoro do trabalho?
Preto C é um dos maiores beatmakers, dos melhores produtores musicais. É um cara paciente, que tem no seu DNA o MC como base que traz ali um entendimento maior. O direcionamento conceitual, é difícil de comentar. Não vejo exatamente como um conceito. O álbum é bem plural, ao meu ver. Minha relação com o Preto, nossa amizade, fez as coisas fluírem. Ora ele me apresentava, ora eu pedi um sampler. Entendo que deu tudo certo e vai continuar dando.
As colaborações no álbum ampliam o universo da obra. O que orienta suas escolhas de participação: afinidade estética, proximidade pessoal, ou uma busca por tensionar sua própria linguagem?
Essa pergunta contém toda a resposta (risos) só mudar a pontuação. Eu acho que você entendeu o meu álbum como poucos.
O disco faz uso recorrente de referências à cultura pop. Como você seleciona essas referências e de que forma elas ajudam a construir camadas de sentido nas suas letras?
Acrescentando ao que eu disse anteriormente, desenhos, seriados, filmes, que passavam na TV aberta, livros e músicas diversas. Isso foi o meu refúgio, tá no meu consciente, no meu inconsciente. Sempre vai brotar na minha arte mesmo que não seja percebível explicitamente.
A cena hip hop de BH vive um momento de visibilidade e transformação contínua. Como você analisa esse cenário hoje em termos de potência criativa, disputas internas e relação com o mercado?
Belo Horizonte tem tanta gente massa, tanto artista cabuloso e falando especificamente do RAP, dentro da cultura Hip Hop, são tantos artistas que merecem mais...
Sinceramente eu não vejo disputa interna.
Em Belo Horizonte praticamente não existe mercado. Nenhum artista que trabalha só em Belo Horizonte sobrevive só da sua arte. A relação com o mercado depende do capital. Há pouco tempo o Froid MC disse em uma entrevista coloca 500 mil na minha mão que eu estouro quem que você quiser. Nem precisa ter talento. Daí você tira uma ideia do tamanho do problema. Eu acho que ele quis só mostrar que o dinheiro é mais importante para o alcance do que o talento, ao menos hoje em dia, guardado as devidas proporções do que já foi.
Com esse novo trabalho, o que você deseja provocar no público e na cena? Existe um impacto específico — artístico, simbólico ou até político — que você almeja alcançar a partir desse disco?
Bicho, quero tocar, quero que me ouçam e cometem, quero pessoas do meu show. Minha música sendo ouvida, simbólica e politicamente. Tanto para mim quanto para quem curte e pelos assuntos abordados. Independente do alcance, já é para mim de grande importância e satisfação. Faço 51 anos esse ano, vou fazer mais músicas, mais álbuns mais singles, não tenho a expectativa de balançar nenhuma estrutura mercadológica. Ter 150 pessoas no meu show, como foi no Chico Nunes no lançamento do meu disco, para mim já é uma vitória para um artista do RAP underground como eu. Eu já toquei para praticamente ninguém. E se acontecer de novo, não me abalo. Focando mais na sua pergunta, tanto simbólica quanto politicamente, é uma questão muito mais individual.
