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Show de Patrícia Ahmaral percorreu parcerias de Caetano e Gil

Divino Maravilhoso, sintético e delicado - Com participação de Marcelo Veronez, Sérgio Pererê e Pedro Morais,  acompanhada de Rogério Delayon e Bil Lucas, a cantora apresentou uma narrativa linear da trajetória dos monstros sagrados da MPB, no Teatro do Centro Cultural Unimed BH Minas Texto: Maron Filho | Fotos: Sâmara Oliveira


Percussões à esquerda de quem vê, violão e guitarras objetivas à direita; ombros de nadadora, arqueados, em movimentos delicados e precisos ao centro — e no fundo do palco projeções em vídeo que narram o que as canções evocam ou o tempo e lugar em que foram feitas. Esse seria um instantâneo do show “Divino Maravilhoso” estrelado por Patrícia Ahmaral no Teatro do Centro Cultural Unimed BH Minas.


A apresentação começa com a cantora à capela, sentada de costas para o público, cantando “Quem vem pra beira do mar”. A voz límpida parecia propor outro contorno melódico para a canção de Dorival Caymmi, mestre de Gil e Caetano, e mestre de outro mestre da dupla: João Gilberto. Com o palco azul feito um aquário, escurecido pelo blackout ainda não levantado, estava aberto o inventário da obra dos compositores, longamente pontilhado em 27 canções.



Nesse primeiro momento as paisagens projetadas evocam uma Bahia natural, sem outra proposição aparente, que não a de ilustrar. Depois de cantar “Beira mar” e “Deia e Lia”, com o violão de acompanhamento de Rogério Delayone e a percussão de Bil Lucas, Patrícia Ahmaral se levanta, pega a mala em que estava sentada (descobrimos na hora que não era um banco) e parte para no “No dia em que eu vim me embora”. Nesse momento sentimos a juventude transgressora de Caetano e Gil: “Mamãe, coragem”, parceria do primeiro com Torquato Neto, resgata o clima aventureiro da época.



Atento e forte — Patrícia Ahmaral havia mudado de roupa, trocando um vestido bege-amarelado por um multicor, numa estilização elegante que remete remotamente aos parangolés de Hélio Oiticica. Assim recebeu Marcelo Veronez, que com calça preta justa no corpo, blusa preta transparente, cantou com pungência “Divino Maravilhoso”, primeiro momento em que o público foi convocado a vir junto, ensejando, talvez, a coragem “atenta e forte” sempre necessária num país conflagrado e ameaçado pelo fascismo e seus “bugigangos”. 



Veronez deixa o palco, aplaudido por uma plateia que quase lotava o teatro. Daí se seguem “Lindonéia”, “Panis et circensis”, “Eles”, “London”, “Londone In the hot sun of a Christmas day”, faixas acompanhadas por projeções visuais variadas, do psicodelismo a filmagens da época londrina dos compositores. Os arranjos para as canções são simples, carron ou outras percussões à mão, violão ou guitarra e Patrícia Ahmaral, na voz de quem estudou canto lírico, apoiado por vocais momentâneos dos músicos de apoio.


Olhos vendados e amizade — Pedro Morais chegou por trás, silenciosamente cobre com as mãos os olhos da Patrícia Ahmaral, para cantar “Dada” e “Eu e ela estávamos ali encostados na parede”, esta última assinada, junto de Gil e Caetano, por Zé Agrippino, escritor e agitador tropicalista. Se por um lado houve o gesto sensível e intimista e um despojamento natural no palco, por outro a performance de Pedro Morais não deu brilho para o roteiro, seu canto esteve um pouco opaco, sem ênfase. Demonstrando apreço de amigos e mútuos admiradores, Patrícia Agmaral e ele se abraçam, após cantarem as duas faixas, entre toques e carinhos. Após a vinheta incidental “Saudação aos povos africanos”e “Ingena”, música folclórica, e “Bat Macumba”, canção concretista, o show muda inteiramente de tom, o palco vira terreiro:  a densidade aumenta — a negritude grave de Sérgio Pererê.



“Só quem sabe onde é Luanda” — Sérgio Pererê traz a pele na voz e aura na presença. Vestindo um terno cheio de listras finas, mais multicolorido do que o vestido de Patrícia Ahmaral, ele modificou o eixo narrativo do show, que apesar de menções provinciais à Bahia, descrevia uma experiência principalmente urbana. Reunidos à esquerda de quem vê, onde ficam as percussões, Patrícia e os músicos mergulham em “As Ayabás”, de Caetano e Gil, que mostram os pés lá na umbanda, no candomblé, na África brasileira, Luandas de todos os tempos. Perguntei à Patrícia se aquilo era da dupla mesmo; não sabia que espírito preto também tinha baixado na composição dos dois, daquela forma tão primal.



Reconhecendo a grandeza da performance, potencializada pelo contemporâneo e entusiasmado resgate das tradições afro diaspóricas, o público aplaudiu muito aquele que foi o momento mais pungente da apresentação. “Iansã” veio na sequência, em voz e guitarra que remetia aos raios da “senhora das nuvens de chumbo”.


“São João, Xangô menino” antecipa “Luz do Mundo”, feita pela dupla em parceria estendida a Djavan, Chico Buarque e Arnaldo Antunes, para desaguar em “Haiti”, rap violonístico, em que o MC é Caetano Veloso e o beat-maker Gilberto Gil. “Pense no Haiti, reze pelo Haiti”. Patrícia Ahmaral se ajoelhou, juntou as mãos estendidas em prece. “Estou pedindo por nós…”



Nesse momento, senti que o show estava pronto-acabado, seria um desfecho, delicado e sintético, como é a presença inteira de Patrícia Ahmaral. Mas de fôlego longo, a noite seguiu por “As camélias do quilombo do Leblon”, “Cinema Novo”, “Coraçãozinho” “Um Trem Pras Estrelas”, com o bis em “Quando”. A concepção, o roteiro e a direção do show é de Pedrinho Alves Madeira, que entregou o projeto para Patrícia.


“Divino Maravilhoso” fez o panorama, contou uma história curiosamente não tão contada: feixe de parcerias de dois artistas que foram da revolução tropicalista às paradas de sucesso nos rádios, para se repousarem  no mundo dos pop-stars, com prêmios aos quilos, mais que merecidos. Um show feito por uma artista de trajetória extensa e independente; uma noite de músicas arranjadas com simplicidade, envolvidas por imagens ilustrativas: um show de artista com pé na estrada, dando seguimento ao ofício, reverenciando monstros sagrados. A plateia, mais velha, certamente levou o matutar pra cabeça de filhos e netos: “lembra que isso existiu e ainda existe, reze pelo que existe: é só pôr no Spotify, tá tudo lá”.



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