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Thales Silva fala sobre o sucesso e as perspectivas do Tranquilo

Ouvidos Atentos, Corações Abertos! Quem já foi a uma edição do Tranquilo reconhece e compactua com o mote que traduz perfeitamente o espírito do evento. Fundado em 2018, o Tranquilo é, de longe, uma das principais iniciativas voltadas à música independente em Belo Horizonte.


O evento consiste em encontros semanais, realizados às terças-feiras, de forma itinerante em diferentes locais da cidade com os quais o evento desenvolve parceria. Rompendo com a forma tradicional de divulgação, o público só tem acesso à programação da semana horas antes do evento, mediante interação no Instagram oficial.


Cada edição é marcada por apresentações extremamente intimistas, onde talentos jovens e veteranos dividem democraticamente a atenção do público, que é submetido a uma verdadeira experiência de fruição da música autoral. E as interações sensoriais são muitas: a proximidade com o artista, a iluminação minimalista, a acomodação da plateia no chão, a distribuição de letras impressas, as vendas nos olhos e as canções executadas tête-à-tête.


Fotos: Alexandre Biciati

Nem mesmo o ingresso ao evento segue a linha tradicional. A entrada no Tranquilo acontece mediante uma contribuição sugerida em detrimento a um preço imposto. A cobrança do consumo de bebidas também segue a mesma lógica de confiança: após pagar pela bebida, cada um se serve por conta própria no isopor. Pode soar ousado, mas a ideia disruptiva diz muito sobre a proposta do evento que ignora os padrões comerciais preestabelecidos e comunica em cada detalhe a essência do rolê.



Como era de se esperar, o evento tem crescido de forma expressiva a medida que cativa o público. O sucesso fez com que o Tranquilo, inclusive, se expandisse para além de BH e fincasse bandeira em São Paulo, que conta com edições a cada segunda-feira desde outubro de 2022.


Em entrevista ao Phono, Thales Silva, fundador e idealizador, fala sobre sua formação musical, os tempos de músico independente em BH, as mudanças do mercado musical, as origens da iniciativa, o processo de curadoria, planos para o futuro e muito mais. Confira!


Foto: Luana Buenano

Phono: Thales, como se deu a sua relação com o universo da música? E ainda: em que momento que se tornar músico foi uma opção de vida?


Bom, minha relação inicial com a música vem dos meus pais enquanto ouvintes incessantes. Lembro do meu pai aos domingos ouvindo muito Pink Floyd, Dire Straits e Roger Hodson no mais alto volume. Ele sempre investiu em bons sistemas pra ouvir música. Gosta de rock, blues e também jazz. Tocou muito John Coltrane e Duke Ellington. Minha mãe sempre foi mais da música brasileira: Chico, Gonzaguinha, Paulinho Pedra Azul.


Eu, praticamente, parei de tocar. Portanto, já não me considero tão músico. Sinto que minha paixão pela música sempre foi no sentido de ser um instrumento político, de transformação. Essa paixão segue comigo hoje. Creio que, exatamente por isso, me tornei um articulador defensor do lugar do artista, músico na sociedade.



Phono: Você se tornou conhecido, inicialmente, por ter feito parte de bandas como A Fase Rosa e ter lançado seu disco em formato solo na década passada. De lá para cá, o mercado musical sofreu diversas transformações que mudaram muitas "regras do jogo". Olhando em retrospecto, quais são as diferenças mais significativas que você observa?


Fui muito atuante num período de transição, já da queda dos festivais de médio porte sustentados pelas leis de incentivo, num momento pré-auge do Instagram e que o Tik Tok e outras plataformas eram desconhecidas. A sociedade não era conformadamente online como hoje. Penso também que divide os debates com os últimos filhos de pais marxistas, de uma esquerda tradicional que ainda ousava questionar o capitalismo. Isso pode parecer pouco, mas entendo que, na verdade, é uma mudança radical. O consumo de música se adequou profundamente à lógica da indústria rápida, barata e em larga escala. A arte encolheu pro entretenimento protagonizar o fazer musical. 


Objetivamente, o capitalismo deu largos passos tecnológicos, o consumo se segmentou, as ferramentas de exploração e super produção se aperfeiçoaram e a indústria da música se adequou muito a qualquer outro mercado competitivo rápido. A competitividade e a lógica do livre mercado escancarou discursos de maior apelo como a sensualidade, a festa e as identidades. Acredito que um próximo passo, sem muita demora, será o fortalecimento de outros nichos, justamente pela capacidade tecnológica de chegar a quem quer comprar. E tem gente querendo comprar tudo.



Phono: O Tranquilo foi fundado em 2018 e, desde então, tem se tornado uma das principais iniciativas voltadas a música brasileira. Como se deu a gênese do projeto e como foi sua transição dos palcos para os bastidores?


O projeto nasceu de algumas das angustias que citei aqui. Eu, particularmente, não soube nem fui feliz pensando em me adaptar às novas lógicas do mercado. Nessa recusa e fracasso, quis construir um projeto que fosse espaço para o artista que também não estivesse conseguindo se compreender num mercado tão focado na estética do entretenimento mais fácil, da música de festa. No Tranquilo resiste um ar contemplativo, o foco na escuta, a atenção e conexão com a letra e o que é cantado. Eu criei o Tranquilo pensando em mim. Um espaço onde minha música coubesse. 


A transição foi bem natural. Minha relação com a música, como disse, sempre foi política e agarrada no sonho de transformação. Na articulação, na produção e nos bastidores eu me vi mais forte e perto desse sonho. Sinto alguma falta de tocar, mas vi que minha paixão é pela transformação. Se não foi possível cantando, eu vejo agora horizonte possibilitando que as pessoas cantem. E pra muitas pessoas!



Phono: Passados 5 anos, O Tranquilo se consolidou, tornando uma exímia ferramenta para fomentar a cena independente. Quais são as virtudes que fazem com que o evento seja o que é hoje?


O Tranquilo rompeu bolhas e desfez alguns preconceitos. Por mais que algumas figuras estejam mais perto, o projeto foca em formar uma comunidade, não um pequeno grupo de pensamento idêntico que afasta e menospreza os diferentes.


O formato é simples e dinâmico também. A itinerância quebra a monotonia, a circulação de artistas diferentes mistura públicos e oxigena constantemente a ideia.


Ao contrário das casas de show mais herméticas, o Tranquilo também propõe mais trocas com o lugar e a cidade em sí. O ar livre, a ideia de se sentar em cangas, o artista próximo e não no palco. Existe algo de muito visceral e verdadeiro ali.


Pra além disso, com uma comunicação bem montada e uma estratégia corajosa nós rompemos aquele ciclo negativo de que "rolê independente é ruim". Aquela luta insistente pra convencer amigos a "ajudar", "dar moral". Criamos um clima de curiosidade, descoberta e um senso de pertencimento real.


Fizemos um pacto pela exaltação e propagação do trabalho de artistas e empoderamos o público. E eles fazendo parte disso, se tornaram reais motores e ferramentas de divulgação de artistas para seus amigos. Eles se sentem parte e são primordiais no modelo que desenhamos.


Se o projeto tivesse um discurso para agradar bolhas e programação focada num clube pequeno de uma cena criativa já teria morrido no primeiro ano.



Phono: Um elemento fundamental do Tranquilo é a curadoria atenciosa que une, no mesmo palco e em formato intimista, novos artistas e veteranos. Como é feita a seleção?


Respeitamos trajetória, qualidade e de fato, buscamos colocar na mesma noite artistas em diferentes momentos de sua trajetória. Isso é o sonho pro pequeno, oportunidade essa que eu mesmo não tive como artista. E pro artista veterano também se torna um momento único, tanto pelo gesto de chancelar um movimento e as novas sementes, como pela exaltação única com que são recebidos pelo público. Há um reconhecimento de que eles são um verdadeiro presente pra todo movimento que construímos. 



Phono: O Tranquilo cresceu para além das Minas Gerais e hoje tem edições paulistanas às segundas feiras. Como se deu essa expansão e como tem sido a receptividade por lá? Há diferenças entre o público das duas cidades?


Aqui em São Paulo, onde estou morando agora, tem sido lindo. Irretocável. Há na cidade uma cultura de apoio mais consolidada e uma indústria mais bem estruturada. Acredito que o modelo tão belo-horizontino, desacelerado e singelo chama atenção do paulistano. Assim como penso que levaremos bons aprendizados pra indústria tão defasada da música de Minas.


Novamente me sinto apostando no diálogo. Na troca. Essa diplomacia, esse olhar de aprendiz faz do Tranquilo um rolê em incessante crescimento.



Phono: Por fim, quais são os planos futuros para o Tranquilo? 


Nós pretendemos agora consolidar as estruturas de BH e SP para, então, testarmos novas praças e atacar com muita contundência o aspecto da circulação. Regionalmente, entendo que o Tranquilo já trilha caminhos claros e impacta problemas de forma concreta. Nacionalmente, nosso sonho é abrir novas portas, praças e fomentar e facilitar a circulação de artistas que começam a se destacar. 


Devemos também virar um selo musical em breve. Essa comunidade gigante que criamos, tenho certeza, irá abraçar e lançar artistas junto a nós. Tenho certeza!

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