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Titãs reafirma a potência de Cabeça Dinossauro 40 anos depois

Atualizado: 29 de abr.

Texto: Bruno Lisboa / Fotos: Alexandre Biciati


Quatro décadas depois de seu lançamento, Cabeça Dinossauro seguiu como um dos discos mais importantes da história do rock brasileiro — e falar sobre a temporalidade de seu repertório foi, no fim das contas, chover no molhado. Bastou revisitar suas letras para perceber que pouco envelheceu: a crítica social de faixas como “Polícia”, “Igreja”, “Estado Violência” e “Bichos Escrotos” continuou atravessando o presente com a mesma força, o mesmo incômodo e a mesma urgência de 1986.



Foi justamente essa permanência que moveu a nova turnê dos Titãs, batizada de Cabeça Dinossauro – 40 Anos, que celebrou o álbum responsável por redefinir não apenas os rumos da banda, mas também a própria linguagem do rock brasileiro. Se naquele momento o disco representou ruptura, agressividade e identidade artística, no palco ele retornou como reafirmação de legado — e também como prova de que certos gritos nunca deixaram de ecoar. Em Belo Horizonte, a apresentação aconteceu no BeFly Hall, que esteve lotado, levando ao público mineiro um espetáculo que reafirmou a potência de um repertório que atravessou gerações sem perder contundência.



Diferente da turnê Encontro, que reuniu parte da formação clássica (a única exceção foi a do finado guitarrista Marcelo Fromer) e apostou fortemente no apelo afetivo dos grandes sucessos, os Titãs responderam agora por um trio em sua base: Sérgio Britto, Tony Bellotto e Branco Mello. Foram eles que carregaram a responsabilidade de manter viva a obra da banda de rock mais importante do Brasil, sustentando não apenas a memória, mas a permanência estética e política desse repertório.


Ao lado deles, com apoio dos guitarristas Beto Lee e Alexandre de Orio e do baterista Mário Fabre, o espetáculo ganhou ainda mais densidade e peso, preservando a aspereza original de Cabeça Dinossauro. A formação de apoio foi fundamental para recriar a pulsação crua e a agressividade sonora que transformaram o disco em marco do rock nacional.



Se visualmente a turnê não apresentou o mesmo apelo grandioso de Encontro, mais apoiada no fator nostalgia e em uma construção cênica mais elaborada, a nova excursão apostou em uma sobriedade coerente com o repertório. O principal destaque ficou para o grande telão ao fundo do palco, que exibiu imagens em preto e branco e ajudou a reforçar a atmosfera seca, urbana e agressiva do espetáculo, sem desviar o foco da música.


No palco, também chamou atenção o desempenho vocal de Branco Mello, que surgiu mais seguro e melhor do que em apresentações anteriores, sustentando com firmeza canções emblemáticas do repertório. Tony Bellotto, por sua vez, assumiu os vocais em faixas como “Igreja” e “Família”, reforçando o caráter coletivo da apresentação e a força da atual formação em manter viva a identidade da banda.



A comunicação com o público foi breve, quase protocolar. A banda optou por falar pouco entre as músicas, deixando que o repertório falasse por si mesmo. Diante de canções tão contundentes, qualquer discurso adicional pareceria excesso. O peso estava nas letras, na execução e na permanência brutal daquelas mensagens.


O setlist, como esperado, perpassou integralmente o repertório de Cabeça Dinossauro, com suas 13 faixas executadas em sequência, da faixa-título até “O Quê”, passando por “AA UU”, “Igreja”, “Polícia”, “Estado Violência”, “A Face do Destruidor”, “Porrada”, “Tô Cansado”, “Bichos Escrotos”, “Família”, “Homem Primata” e “Dívidas”. Isso permitiu ao público o acesso raro à experiência de ouvir ao vivo canções que há muito tempo estavam ausentes dos palcos, como “A Face do Destruidor” e “Tô Cansado”, faixas que ficaram de fora da turnê Encontro, muito mais pautada pelos hits e sucessos radiofônicos da fase inicial da banda.



Mas o show não se encerrou no clássico de 1986. Após a execução completa do disco, a banda mergulhou em um segundo bloco ainda mais agressivo, reafirmando que a proposta da turnê não foi a nostalgia confortável, mas o enfrentamento. Entraram em cena faixas como “Será Que É Isso o Que Eu Necessito?” e “Nem Sempre Se Pode Ser Deus”, de Titanomaquia; “Armas pra Lutar”, “Diversão”, “Lugar Nenhum” e “Desordem”, de Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas; além de “Eu Não Aguento”, “Flores”, “Anjo Exterminador”, “Canção da Vingança”, “Vou Duvidar” e “Eu Não Sei Fazer Música”.



A escolha não foi casual: eram canções que também romperam a barreira do tempo e permaneceram igualmente urgentes. Não houve concessão ao conforto fácil do repertório radiofônico. O show foi pesado, como pediu o figurino — seco, direto e visceral.


Sem firulas, sem verniz, os Titãs mostraram que Cabeça Dinossauro fazem da atual um espetáculo brutal e catártico, que reafirmou a força de um disco histórico e mostrou que, em muitos aspectos, 1986 ainda não terminou.



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