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Transmissor celebra 20 anos de história na Autêntica

Foto: Natália Menin
Foto: Natália Menin

Em uma época em que bandas surgem e desaparecem na velocidade dos algoritmos, completar vinte anos mantendo a identidade artística intacta já é, por si só, uma conquista. No caso da Transmissor, esse percurso também foi sustentado por algo menos visível, mas essencial: a amizade entre seus integrantes, anterior até mesmo ao nascimento da banda.


No dia 1º de agosto, a Transmissor sobe ao palco da Autêntica para celebrar duas décadas de história. A formação reúne Thiago Corrêa, Leonardo Marques, Jennifer Souza, Henrique Matheus e Pedro Hamdan. A noite ainda contará com o Vanguart e Teago Oliveira (Maglore), parceiros de longa data na cena independente brasileira. O encontro retoma uma apresentação que precisou ser adiada no ano passado e reúne duas bandas que construíram suas trajetórias sem abrir mão da própria personalidade.


Ao revisitar essa história, Jennifer Souza lembra que a Transmissor nasceu "de forma mais leve, entre amigos", como uma maneira de Thiago Corrêa e Leonardo Marques se reconectarem com o Brasil depois do fim da experiência internacional do Diesel. O que começou sem grandes pretensões acabou se tornando um dos projetos mais importantes da música independente mineira dos anos 2000.


Vinte anos depois, Jennifer acredita que o que mantém a banda viva continua sendo exatamente aquilo que estava presente desde o início. "A gente já tinha uma amizade antes do Transmissor existir, e essa amizade segue firme", afirma. "Esses reencontros dentro do Transmissor são muito prazerosos por causa disso."


Essa mesma lógica explica por que a banda nunca se deixou conduzir pelas pressões do mercado. "Meu modo de criar não passa por esse lugar", diz Jennifer ao falar sobre a velocidade exigida pela indústria musical atual. "Acho muito difícil conseguir criar, em tempos recordes, obras que realmente tenham relevância e perdurem no tempo."


Em entrevista ao Phono, Jennifer revisita a trajetória da Transmissor, fala sobre o legado dos três discos de estúdio, o significado que as canções ganharam ao longo dos anos, a importância dos reencontros e da amizade que mantém a banda unida, além da celebração de uma história construída coletivamente — no palco, entre amigos e ao lado de um público que continua fazendo parte dela.


Vinte anos depois do começo da Transmissor, qual é a primeira lembrança que vem à cabeça quando vocês olham para aquela banda que estava começando? O que ela sonhava ser e o que acabou se tornando?


A Transmissor nasce do desejo do Tiago e do Léo de se reconectarem com o Brasil no momento em que voltam dos Estados Unidos, depois de uma longa temporada com o Diesel, encerrando um ciclo dessa empreitada. Havia uma saudade de casa, um desejo de reconexão com a cultura brasileira e também de explorar outras formas de criação, estreando suas carreiras como compositores e cantores.


Essa primeira semente da Transmissor foi plantada ainda no exterior. Eles chegaram a fazer um show em dupla, em um pub ou café, se não me engano. Quando voltaram ao Brasil, continuaram investindo nesse projeto. A banda começa nesse lugar de reconexão com o Brasil e de ter um projeto para explorar essa volta para casa.


Num primeiro momento, era algo despretensioso, até porque eles passaram uma longa temporada fora em um projeto que representava uma grande aposta de carreira. A Transmissor surge de forma mais leve, entre amigos, e acho que, por esse motivo, a banda acabou tomando forma. Entrei logo no início, depois do primeiro show em Belo Horizonte, que aconteceu sem a minha participação. Já no segundo show, passei a integrar a banda. A partir do primeiro disco, ela se consolidou como um projeto importante e prioritário para nós cinco.


O que existia na Belo Horizonte em que a Transmissor nasceu que talvez não exista mais? E o que

permanece vivo na banda desde então?


A Transmissor faz parte de uma geração de bandas que ajudou a moldar uma cena importante em Belo Horizonte, especialmente no rock, no indie rock e em seus desdobramentos ao longo dos anos 2010. Foi uma cena que teve impacto e relevância e que, hoje, se transformou em outra coisa.

Com o passar dos anos, é natural que os projetos e as pessoas se transformem, se insiram, reinventem e encontrem outros lugares dentro da cena cultural da cidade. A Belo Horizonte daquela época é bem diferente da de hoje. Ainda consigo enxergar essas relações, mas em outro lugar de importância.


O que permanece é a relevância dos trabalhos feitos de forma sólida e sincera. Isso perdura no tempo. Também permanecem os encontros para tocar e fazer shows, nesse lugar do reencontro e da celebração do que construímos. Isso só é possível porque, acima de tudo, existem relações de amizade. Acho que esse é um aspecto fundamental para que esses reencontros aconteçam.


Quando vocês olham para os três discos da Transmissor, conseguem enxergar uma história sendo contada? O que cada álbum registra daquele momento da banda?


Sim. Os discos são retratos de momentos da nossa carreira.


Sociedade do Crivo Mútuo, de 2008, nosso primeiro lançamento, era uma incógnita. Durante o processo, sabíamos menos do que nos outros dois discos sobre o que ouviríamos quando ele estivesse pronto, porque tudo era novo para todo mundo. Desde o início, a proposta da banda era que todos participassem como compositores, cantores e instrumentistas. Então, não sabíamos muito bem como aquilo sairia ou que cara teria.


No Nacional, de 2010, já conseguimos ter um norte mais claro sobre a estética da banda, sobre onde estávamos e com quais gêneros e influências tínhamos mais afinidade e diálogo.


De Lá Não Ando Só, de 2014, representa um momento bem diferente do Sociedade do Crivo Mútuo. Foi a primeira vez que trabalhamos com um produtor de fora da banda, já que os dois primeiros discos foram produzidos por nós mesmos. Isso trouxe outro tipo de experiência e de processo.


Os discos têm interseções, mas, no meu ponto de vista, são bastante diferentes entre si. Isso diz muito da nossa trajetória e do momento vivido em cada um deles. A banda mudou de formação, depois voltou à formação original, e cada um de nós também vivia momentos diferentes da vida. Tudo isso impacta um projeto coletivo. Com certeza, a discografia conta a nossa história e registra os momentos que estávamos vivendo enquanto cada disco acontecia.


Existe alguma música do repertório que ganhou outro significado com o passar dos anos? Alguma que hoje emociona vocês por razões diferentes das originais?


Acho que sim. As músicas ganham diferentes significados, não só a partir do tempo de vida delas, mas também do que a gente recebe de feedback, das histórias de outras pessoas que têm relação com essas músicas, dos depoimentos que chegam até a gente.


É muito interessante ver como uma música que, talvez, tenha sido composta a partir de um acontecimento romântico, para uma pessoa pode significar outra coisa. Ela pode ouvir aquela música e enxergar ali um sentimento que tem mais a ver com uma relação familiar, com uma relação entre amigos.


As músicas vão ganhando essas interpretações ao longo da vida delas, e isso também reflete na nossa forma de sentir essas canções. Então eu acho que a gente muda em relação àquilo que sentia no momento inicial.


Lembrei agora de "Traz o Sol pro Meu Lado da Rua", que é uma das músicas do nosso segundo disco e uma composição do Vander Lee com o TC. Hoje em dia, quando a gente toca essa música, ela tem muito a ver com a presença do Vander, com a saudade, com o legado dele, o que era uma coisa que a gente não sentia quando gravou o disco. Naquela época, era a celebração de um encontro, de uma amizade, que continua sendo, obviamente, mas hoje bate em outro lugar, bate num lugar mais fundo.


A mensagem ganha outro tipo de força. Acho que isso vale para todas as músicas, não só da banda. De forma geral, eu sinto dessa maneira.


A Transmissor sempre pareceu seguir um caminho muito próprio, sem se preocupar em acompanhar tendências. Isso foi uma escolha consciente ou simplesmente a consequência de fazer a música em que vocês acreditavam?


Acho que algumas coisas colaboram para essa identidade forte do projeto. Desde o início, já existia o desejo de que a banda fosse democrática, de que todos participassem dos processos criativos e de que os arranjos fossem construídos em conjunto. Tudo isso contribui para que a música tenha identidade e sinceridade, a partir do momento em que você se dispõe a trabalhar coletivamente de forma verdadeira.


O produto final, por mais que o processo às vezes seja mais difícil, acaba sendo muito interessante, porque consegue sintetizar várias personalidades, diferentes formas de criação e de interpretação. Esse processo é muito rico e faz com que o que você está criando seja mais único.


Nossa música tem muito a ver com isso, com o fato de realmente existir um pedacinho de cada um de nós. Temos influências e formas de expressão muito diferentes entre si, embora também compartilhemos muitas afinidades. Quando olhamos para uma canção construída coletivamente, percebemos que criamos algo único. Acho que passa muito por essa disposição de seguir um caminho talvez mais difícil, mas que resulta em sinceridade e identidade, carregando as diferentes personalidades da banda.


Em vinte anos, mudou a forma de gravar, lançar, divulgar e consumir música. O que era mais difícil naquela época? E o que é mais desafiador hoje?


Eu acho que, guardadas as proporções, para artistas de pequeno porte que se propõem a manter uma carreira sólida e longeva, para além dos números, sempre foi difícil. Eu vejo o trabalho do Transmissor, o meu trabalho e o de outros amigos nesse lugar.


Antigamente, a gente precisava correr atrás de dinheiro para fabricar um CD. Às vezes carregava equipamento na cabeça para fazer um show, convidava as pessoas no boca a boca, uma por uma. Essa é a realidade de um artista independente que não é famoso. Claro que o Transmissor conquistou relevância e um público em Belo Horizonte, mas a gente nunca conseguiu viver exclusivamente da banda. É muito difícil fazer um projeto autoral que consiga pagar dignamente as contas de todo mundo envolvido.


Hoje, o acesso às ferramentas é muito mais democrático. Dependendo do que eu me proponha a fazer, consigo gravar, na minha própria casa, um disco de voz e violão com extrema qualidade, ou até algo mais elaborado. Também consigo colocar esse disco nas plataformas, fazer uma capa e cuidar de praticamente todo o processo. Mas eu acho que o grande desafio continua sendo manter uma carreira que sobreviva a todas essas mudanças ao longo dos anos. As redes sociais atropelaram a forma como consumimos arte e música, e permanecer nesse cenário a médio e longo prazo talvez seja o maior desafio.


Acho que sobrevive quem realmente escolheu fazer isso da vida, não apenas de forma momentânea, mas com a intenção de criar algo que perdure. Era difícil antes e continua sendo difícil hoje, cada período com seus prós e contras.


Para os artistas independentes, continua sendo uma batalha. Não adianta gravar um disco em casa e lançá-lo. A questão continua sendo: como viver disso? Como fazer essa carreira funcionar? Como ganhar dinheiro com a própria música? Isso continua sendo muito desafiador.


Num momento em que os artistas parecem pressionados a produzir conteúdo o tempo todo, como uma banda consegue preservar o tempo da criação sem perder relevância?


Pois é, acho que isso tem a ver com você decidir se realmente quer entrar nessa dança, entender se é fazer as coisas conforme o mercado, conforme a tendência, conforme a moda do momento, ou se é outra coisa. Como o Transmissor e as bandas das quais participei não estão mais tão voltados para esse momento de criação de material inédito, lançamento e planejamento de novos conteúdos, eu nem saberia dizer.


Falando do meu próprio trabalho autoral, vou lançar um disco novo em breve. É um disco que estou fazendo há cinco, seis anos. Então isso realmente não passa pela minha cabeça. Não penso que preciso lançar uma música no mês que vem, outra no mês seguinte. Meu modo de criar não passa por esse lugar.


Acho muito difícil conseguir criar, em tempos recordes, obras que realmente tenham relevância e perdurem no tempo. Pelo menos os processos criativos dos quais participei, tanto dentro do Moons quanto dentro do Transmissor quanto com a minha música e outros projetos, nunca tiveram essa urgência, essa velocidade totalmente ditada pelas redes sociais. É uma velocidade ultra, mega, blaster desumana. Não acho que tenha a ver com o ser humano e, talvez por isso, esteja todo mundo tão enlouquecido e doente.


Todos os integrantes desenvolveram outros projetos ao longo desses anos. O que faz a Transmissor continuar sendo um lugar ao qual sempre vale a pena voltar?


É um reencontro de grandes amigos. Nós somos amigos fora da banda. A gente convive, se visita, faz outros projetos juntos. Então isso faz com que seja possível a gente sempre voltar ao Transmissor para celebrar esse momento das nossas carreiras, das nossas vidas.


Acho que, se não fosse essa amizade perdurando ao longo desses anos todos, com a força que tem entre todos nós, talvez esses reencontros, essas celebrações, não acontecessem.


O que mantém uma banda viva depois de vinte anos? É amizade, afinidade artística, repertório, ou existe algo mais difícil de definir?


Acho que tem muito a ver com o que eu disse na resposta anterior. Passa muito pelo nosso encontro como amigos, como grandes amigos de longa data, e até de antes da banda. O Tiago é amigo do Henrique desde a infância. O Tiago toca com o Léo no Diesell desde o final dos anos 1990, 1999, 2000. Eu conheço os meninos também desde essa época, desde o final dos anos 1990. Então a gente já tinha uma amizade antes do Transmissor existir, e essa amizade segue firme.


É claro que a gente tem afinidades artísticas. Também passa por esse lugar de uma admiração mútua dentro da banda, pelos projetos de cada um, pelas carreiras. Isso fortalece o nosso encontro dentro do Transmissor. E essa admiração também faz com que todo mundo incentive a carreira um do outro. Esses reencontros dentro do Transmissor são muito prazerosos por causa disso.


O show de 20 anos divide o palco com o Vanguart, outra banda que também construiu uma trajetória consistente na música independente. O que esse encontro representa para vocês?


O Helinho (Flanders) é um grande amigo de longa data. A gente queria celebrar essa noite com alguma banda que também fizesse parte da nossa história. A gente já esteve junto em várias ocasiões.


A gente ia fazer um show com o Vanguart em 2024, na Autêntica, mas esse show precisou ser cancelado porque o Henrique, o Felipe, que também está tocando com a gente no Transmissor hoje em dia, e o TC eram a banda do Lô Borges. Coincidiu de o Lô marcar um show nessa data, e a gente acabou cancelando.


Também foi uma forma de retomar esse projeto, essa noite de fazer um show com o Vanguart. É mais um encontro com eles que carimba essa relação de longa data que a gente tem. A gente queria muito fazer esse aniversário com uma banda parceira, que tivesse essa relação de amizade ao longo dos anos.


Na hora de montar o repertório dessa celebração, vocês pensaram mais na história da banda ou na experiência de quem vai assistir ao show? O que não poderia ficar de fora?


Acho que é um pouco das duas coisas. Mas, no final, passa muito pelas músicas que a gente sabe que não pode deixar de tocar, porque são músicas que o público canta junto com a gente e demonstra esse carinho imenso pela banda, por essa história que ficou marcada na vida dessas pessoas.


"1º de Agosto", "Geninha", "Dessa Vez", "Bonina", "Só Se For Domingo"... Tem várias músicas que a gente sabe que precisa tocar, e a gente sempre prioriza ter essas canções no repertório.

Tem uma ou outra que acaba entrando mais por um pedido pessoal de um de nós, dentro do tempo possível do show, para relembrar músicas que a gente toca pouco, que às vezes fica muito tempo sem tocar.


Mas esses shows, que são mais pontuais e raros de acontecer, priorizam todas as músicas que a gente sabe que o público canta junto e vai pedir.


Depois de vinte anos, o que vocês gostariam que a Transmissor representasse para quem acompanhou essa trajetória desde o começo — e para quem está descobrindo a banda agora?


Para quem já acompanha a gente, é uma forma de retribuir esse carinho desses anos todos. A gente sabe que tem um público muito afetuoso, muito carinhoso, especialmente aqui em Belo Horizonte. Esses reencontros, esses shows de celebração, passam muito por esse lugar de celebrar junto com o nosso público esse carinho que a gente recebe ao longo desses anos.


Para quem não conhece a banda e está vendo pela primeira vez, acho que tem esse impacto. Como são shows muito pontuais, raros, tem essa força da galera cantando junto e desse carinho, desse afeto entre a gente e o público.


Acho que fica essa mensagem das relações, da amizade, do afeto, desse cuidado, dessa manutenção desse lugar, que é o mais importante e faz com que a gente possa carregar esse legado, essa obra.

Mesmo que a gente não esteja em atividade total, compondo coisas novas e gravando discos novos, a gente tem esse carinho, esse cuidado de revisitar, agradecer e celebrar o que a gente construiu.


Foto: Luciano Viana
Foto: Luciano Viana


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