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Transmissor comemora duas décadas em noite de encontros na Autêntica


Fotos: Bruno Lisboa
Fotos: Bruno Lisboa

Há algo que une Vanguart, Transmissor e Teago Oliveira, da Maglore, que vai muito além da amizade ou da afinidade musical. Os três pertencem à mesma geração de artistas que despontou em meados dos anos 2000, conquistando público e crítica ao renovar a música independente brasileira sem abrir mão da força da canção. Em comum, cultivaram uma ideia de música baseada na elaboração dos arranjos, na potência das letras e na construção de uma identidade artística sólida. Duas décadas depois, continuam na estrada enquanto a indústria musical passou por profundas transformações.


É justamente por isso que o encontro dos três na Autêntica teve um significado que extrapolou a reunião de nomes importantes da música brasileira contemporânea. A noite foi uma celebração da canção como linguagem artística, em um momento em que o mercado parece privilegiar o consumo rápido, a viralização e a efemeridade. Se existe alguma resistência possível dentro da música contemporânea, ela talvez esteja justamente na permanência desses artistas, que seguem compondo sem abrir mão da própria identidade.


A celebração tinha ainda um motivo especial: a Transmissor comemorava duas décadas de trajetória tocando em casa, diante do público de Belo Horizonte. A abertura ficou por conta do Vanguart, que apresentou um repertório centrado em Estação Liberdade, seu trabalho mais recente, sem deixar de revisitar clássicos como “Se Tiver Que Ser na Bala” e “Meu Sol”, recebidos em coro pelo público. O show ganhou contornos ainda mais especiais com as participações de Nath Rodrigues, ao violino, e de Léo Marques, guitarrista da Transmissor, reforçando os vínculos artísticos entre os músicos que dividiam a noite. No encerramento, “Mi Vida Eres Tú” reuniu os integrantes da Transmissor no palco, antecipando o espírito de comunhão que marcaria todo o evento.



Quando a Transmissor assumiu o palco, o clima já era de reencontro. Visivelmente emocionados, os músicos passaram a limpo duas décadas de história por meio de um repertório que percorreu diferentes momentos da carreira. Entre uma canção e outra, dividiram lembranças dos primeiros anos da banda e falaram sobre encontros decisivos ao longo da caminhada, entre eles a amizade e a parceria com Vander Lee, lembrada por meio de “Traz o Sol pro Meu Lado da Rua”.

O setlist encontrou equilíbrio entre passado e presente. Houve espaço para raridades, como “Hoje”, pouco executada ao vivo, para um olhar voltado ao futuro com “Noites com Gosto de Sol”, o mais recente single da banda, e para clássicos que ajudaram a construir sua trajetória. “Da Janela” foi recebida com entusiasmo pelo público, enquanto “Só Se For Domingo” apareceu em um novo arranjo, mostrando que revisitar o próprio repertório também pode significar reinventá-lo.


A celebração ganhou ainda mais força com a presença de convidados que ajudaram a contar essa história. Felipe D'Angelo, baixista de Lô Borges, participou da apresentação, ampliando o diálogo entre diferentes gerações da música mineira. Teago Oliveira dividiu os vocais em “Dessa Vez” e também interpretou sua composição “Motor” ao lado da Transmissor. Em outro dos grandes momentos da noite, Hélio Flanders e Reginaldo Lincoln, do Vanguart, retornaram ao palco para interpretar “Aquática” com a banda mineira, materializando a amizade e a admiração mútua entre artistas que compartilham uma mesma geração da música independente brasileira.


O encerramento veio em grande estilo. Depois da celebração coletiva construída ao longo da noite, todos os convidados voltaram ao palco para interpretar “Nada Será Como Antes”, composição emblemática de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, eternizada na voz de Milton e também por Beto Guedes. Mais do que uma homenagem ao Clube da Esquina, a escolha sintetizou o espírito do encontro: artistas de diferentes trajetórias reunidos em torno de uma tradição da canção mineira e brasileira que segue inspirando novas gerações.


Ao final, a impressão era de que o aniversário da Transmissor simbolizava algo maior. O encontro entre Vanguart, Transmissor e Teago Oliveira reafirmou a vitalidade de uma geração que ajudou a redefinir a música independente brasileira nos anos 2000 e que, passadas duas décadas, permanece produzindo com coerência e profundidade. Enquanto grande parte da indústria parece cada vez mais condicionada pelas lógicas do algoritmo, eles continuam acreditando que uma boa canção — feita de melodia, letra, arranjo e tempo de maturação — ainda é capaz de encontrar seu público.

Talvez essa tenha sido a maior celebração da noite: a certeza de que a canção, quando feita com verdade, continua encontrando formas de resistir ao tempo.




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