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Turnê Encontro celebra a formação original do Barão Vermelho em apresentação épica

há 7 horas
4 min de leitura
Fotos: Bruno Lisboa
Fotos: Bruno Lisboa

O Barão Vermelho chegou aos 40 anos de carreira (45 para ser preciso) com um privilégio que poucas bandas brasileiras conseguem alcançar: um repertório suficientemente forte para atravessar gerações sem depender apenas da nostalgia. A apresentação da turnê “Encontro”, no domingo, 27 de setembro, no Arena Hall, em Belo Horizonte, mostrou isso de maneira bastante concreta. Com Roberto Frejat de volta aos vocais e à guitarra e Dé Palmeira novamente no baixo, ao lado de Guto Goffi, Maurício Barros e Fernando Magalhães, a banda percorreu diferentes momentos de sua trajetória em um show que teve no repertório e na química entre os músicos seus principais trunfos.


A formação, por si só, já carregava um peso histórico. Frejat e Dé foram fundamentais para a construção da identidade do grupo, enquanto Guto e Maurício representam a continuidade da formação desde os primeiros anos. Fernando Magalhães, que entrou para o Barão em 1985, completa uma banda que conhece profundamente aquelas músicas. No palco, essa reunião não pareceu uma simples reconstituição de uma fotografia antiga. Havia espontaneidade e, principalmente, a disposição de tocar as canções como rock, com guitarras em primeiro plano, baixo e bateria fortes e um volume à altura da história da banda.


O repertório ajudou a transformar o show em uma viagem pela trajetória do Barão. A abertura com “Maior Abandonado” já colocou o público diante de um dos períodos mais marcantes do grupo. Vieram depois “Pedra, Flor e Espinho”, “Pense e Dance”, “Política Voz”, “Tão Longe de Tudo” e “Bete Balanço”, antes de a banda chegar a “Meus Bons Amigos”, “Ponto Fraco” e “Tente Outra Vez”, de Raul Seixas. “Eu Queria Ter Uma Bomba”, “O Tempo Não Para”, “Blues da Piedade” e “Exagerado” ampliaram a presença do universo de Cazuza no espetáculo.


Essa primeira parte do repertório deixa claro um dos méritos da turnê: Cazuza está presente, mas não domina a narrativa. O Barão Vermelho é apresentado em sua dimensão mais ampla, incluindo os anos que vieram depois da saída do cantor. “Quem Me Olha Só”, “Por Você”, “Torre de Babel”, “Declare Guerra”, “Cuidado” e “Puro Êxtase” mostram como a banda construiu uma trajetória própria e continuou produzindo sucessos depois de uma das mudanças mais importantes de sua história.


No centro dessa relação com Cazuza esteve “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”. A música ganhou uma nova versão com a participação virtual do cantor, criando um dos momentos mais simbólicos da noite. A imagem de Cazuza no telão, em diálogo com Frejat, não precisou transformar a apresentação em tributo: bastou colocar novamente os dois no mesmo espaço artístico, décadas depois, para que a história da canção ganhasse outro significado.


Frejat, por sua vez, ajudou a costurar essa história diretamente com o público. Comunicativo durante toda a apresentação, contou episódios sobre a criação das músicas e recuperou histórias da trajetória da banda. Foi assim que “Eu Queria Ter Uma Bomba” ganhou uma dimensão especial. Gravada pelo Barão em 1984, a música acabou ficando fora de “Maior Abandonado” e teve uma trajetória ligada ao período da saída de Cazuza. Segundo Frejat, a situação incomodou tanto os integrantes que o grupo passou cerca de 15 anos sem tocar a canção. Ela só voltou ao repertório em 1999, durante a fase de “Balada MTV”. Em Belo Horizonte, reapareceu como parte de uma história que o próprio show se encarregou de contar.


A escolha das músicas também mostrou outra característica importante do Barão: sua capacidade de circular por diferentes referências sem perder identidade. O repertório incluiu “Amor, Meu Grande Amor”, de Angela Ro Ro, “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo”, de Eduardo Araújo, e “Malandragem Dá um Tempo”, de Bezerra da Silva. “Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto”, da Legião Urbana, apareceu já na reta final. São escolhas que lembram que a banda sempre esteve conectada a um universo maior da música brasileira.


Na parte final, “Torre de Babel”, “Declare Guerra”, “Cuidado” e “Puro Êxtase” aumentaram a intensidade até o bis, que trouxe “Bilhetinho Azul”, “O Poeta Está Vivo”, “Por Que a Gente é Assim?” e “Pro Dia Nascer Feliz”. Ao todo, foram 30 músicas, em um repertório que conseguiu equilibrar os clássicos associados a Cazuza, os grandes momentos da fase comandada por Frejat e algumas canções que ajudam a contar a história da banda para além dos hits mais conhecidos.


O resultado foi um show essencialmente de rock. A reunião não suavizou o Barão para transformá-lo em uma lembrança de outra época. Pelo contrário: as guitarras de Frejat e Fernando Magalhães, o baixo de Dé, a bateria de Guto e os teclados de Maurício deram às músicas peso e movimento. É nessa execução que a importância do reencontro fica mais evidente. Não basta que os músicos tenham participado da história; eles precisam fazer aquelas canções funcionarem novamente. E funcionaram bem ao longo das duas horas de apresentação.


A procura do público também ajudou a dimensionar o interesse pela reunião. A primeira apresentação em Belo Horizonte, marcada para 26 de setembro, teve os ingressos esgotados, e uma segunda data foi aberta para o domingo que beirou o sold-out. O Arena Hall recebeu, assim, dois shows consecutivos de uma formação que reúne músicos de diferentes momentos da trajetória do Barão, mas que encontrou nessa turnê uma combinação particularmente natural.


Há uma diferença entre revisitar uma carreira e voltar a colocar uma banda em movimento. O “Encontro” está mais próximo da segunda opção. O setlist não tenta escolher entre Cazuza e Frejat, entre os anos 1980 e os 1990, ou entre a memória e o presente. Ele mostra que todas essas fases cabem na mesma história — e que algumas das músicas mais importantes do Barão ainda têm força quando deixam de ser lembranças e voltam a ser tocadas como rock.


A apresentação de Belo Horizonte terminou, portanto, menos como uma celebração de um passado encerrado e mais como uma demonstração da vitalidade de um repertório que continua disponível para novas leituras. Frejat e Dé de volta ao lado de Guto, Maurício e Fernando não apenas recompõem uma formação especialmente simbólica do Barão Vermelho. Recolocam em circulação uma combinação de músicos e canções que, quatro décadas depois, ainda encontra resposta imediata do público. E talvez seja justamente aí que esteja o sentido mais interessante desse “Encontro”: não em repetir o que o Barão Vermelho foi, mas em descobrir que boa parte daquela história ainda funciona muito bem quando volta a acontecer ao vivo.



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