Vida após Carne Doce: Salma Jô estremece A Obra
- Bárbara Moreira

- 13 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Texto e fotos: Bárbara Moreira
Estremecendo os alicerces d’A Obra, Salma Jô vem para Belo Horizonte a convite da produtora Quente para a penúltima edição do ano do Tremor. A noite também marcou a retomada de shows n’A Obra, que não recebia shows há pelo menos quatro anos.
Se há uma constante sobre Carne Doce, é que a banda chacoalhou o mundinho underground-midstream nos últimos anos. A frontwoman Salma Jô sempre soube evocar emoções intensas onde quer que passe, goste ou não. Parte da mística da artista é justamente sobre isso: seu carisma e presença inigualáveis, e não é surpresa para ninguém que ela tenha alcançado certo reconhecimento como a voz dissidente de Goiás, subvertendo a lógica do sertanejo universitário e provando que o Centro-Oeste pode ser solo de produções potentes que vão além do clichê atual.

Por mais que o fim da banda tenha pego muitos de surpresa, a aposta geral era que Salma sairia do radar musical por algum tempo, principalmente considerando os últimos anos de turbulência para o quinteto. Sorte dos fãs, a previsão se mostrou incorreta: mostrando o que sabe fazer de melhor, o projeto solo da artista deslancha num misto de saudade pelo que passou e olhos para o futuro. Macloys, seu marido, companheiro e também fundador da ex-banda, a acompanha com sua assinatura que é a guitarra densa.
A “Noite dos Tristes” deu casa cheia, tanto de fãs assíduos quanto de pessoas que conheceram a artista pela ocasião. Independentemente do grupo, todos foram conquistados pela forma pela qual Salma se espalha no palco, crescendo a cada música. Chega a ser engraçado pensar que ela mal tinha espaço para levantar os braços, pois logo tocava no teto da casa.

O show começou pontualmente às 23h, mas a primeira música quase passou despercebida por falta de anúncio de início. Passando pelos maiores sucessos da banda, o público teve a chance de revisitar canções de 10 anos de Carne Doce: “Sertão Urbano” (Carne Doce, 2014), “Princesa” (Princesa, 2016), “Irmãs” (Tônus, 2018), “Hater” (Interior, 2020) e “Noite dos Tristes” (Cererê, 2024) entre elas. Das antigas, a que mais impressiona é “Durin” (também de Tônus), que perde o groove sensual, mas ganha uma pegada rápida e mais agressiva, apropriada para boates. O formato reduzido de beats e guitarra não ficou devendo em nada para o formato banda: Salma já sabe transitar bem entre os timbres eletrônicos, ora recuado para dar espaço à voz, ora enérgico em ótima sintonia com a guitarra.
Os fãs ainda foram presenteados com três composições novas que apontam para caminhos que Salma seguirá nesse novo projeto. Se em “Antimocinha” o público ainda estava entendendo a vibe, em “Veneno”, música de vingança, já estava completamente desperto e, no bis, “Hotel” (que apelidamos carinhosamente de Hotel de Centro), ninguém queria que Salma e Macloys fossem embora. Vale destacar que, segundo Salma, “Hotel” ainda é inspirada em experiências vividas com Carne Doce, mas a composição sonora é bem mais explosiva que os três últimos álbuns da banda, levando a uma catarse coletiva.

Coisa interessante de se notar é que, se em Salma e Mac, o projeto bossa-novístico-mpb, Macloys tem certo espaço para se espalhar, na carreira solo de Salma ele toma seu lugar de apoio, mas sem tantas intervenções. Em dado momento, uma pessoa do público comentou: “ele é muito sério, né?”, considerando que Salma interagia, fazia piadas e até mesmo falava entre as músicas. Para fãs de longa data, era possível ver que Mac estava de fato concentrado, mas se encontrava com a mesma leveza de sua companheira. Se os shows com banda tinham uma exibição teatral cuja personagem poderia evocar o divino, aqui Salma entrega uma versão mais humana e divertida. Sem, é claro, esquecer daquela performance hipnótica que vinha adotando desde 2018.

Com viagem marcada para a madrugada de sábado, Salma e Mac estavam com alguma pressa no último bloco do show, mas ainda assim se atrasaram um pouquinho para apresentar as últimas músicas ao público e atender cada fã que quisesse uma palavrinha ou um afago. Assim como devoramos Caetano, o público quer devorar Salma, conhecê-la, entender e falar sua língua. Esse primeiro show deixa curiosidade positiva para seus próximos passos e gosto de querer mais. Sorte é que sabemos que da cozinha de música o duo entende, pois anteriormente entregaram o tempero mais delicioso para a música independente brasileira contemporânea.












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