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Festival Caramelo: casamento perfeito entre programação e público

Em sua primeira edição, o Festival Caramelo reuniu no line up três gêneros que são basilares para se entender a música popular brasileira atual: o samba, o rap e a cúmbia.


Por mais que os artistas contratados tenham propostas musicais distintas, todos têm como ponto de consonância: cantar a vida em cada verso, colocando em evidência as dores e prazeres da existência. Estamos falando de Pagode das Mina, Orquestra Atípica de Lhamas, Toninho Geraes, Jorge Aragão, Moacyr Luz (e o Samba do Trabalhador), Marcelo D2 (e um Punhado de Bamba), Péricles e KL Jay + Djonga. O time selecionado realizou apresentações ao longo de 14 horas que ficarão marcadas na mente do público que prestigiou a estreia do festival.


Fotos: Bruno Lisboa

Atualmente, o samba tem tido destaque na capital mineira graças ao grande volume de eventos e o reconhecimento de artistas voltados ao gênero. Exatamente por isso, os organizadores do Caramelo acertaram ao reunir artistas icônicos que representaram as mais variadas vertentes do gênero da música popular brasileira que mais evoluiu no decorrer das décadas.


Uma evolução que, aliás, não se deve somente a incorporação de novos instrumentos e sonoridades, mas também pelo fato de que o samba ainda é uma das melhores formas de se documentar socialmente o povo brasileiro, suas transformações e lutas.


A Serraria Souza Pinto, um dos espaços mais tradicionais da cidade, foi o local escolhido pela produção para realização do festival. Localizado na região central e contando com cobertura e área externa, a Serraria acomodou bem o contingente desta edição.




Não Deixe o Samba Morrer


O abra alas da programação foram as mineiras do Pagode das Mina que debutaram em festivais. Formado por Bia Nascimento, Danusa Rosa, Julia Nascimento, Marina Gomes, Livia Itaborahy, Analu Braga, Fernanda Bento e Jo Silva, o grupo promove em suas apresentações um autêntico manifesto em prol do samba com a potência da ala feminina. Canções de artistas como Péricles ("Melhor Eu Ir"), Soweto ("Derê") e Revelação ("Deixa Acontecer") fizeram parte do set.




Yo No Soy Gringa


A Orquestra Atípica de Lhamas foi a segunda atração da tarde e trouxe ao festival toda sua latinidade. Quem conhece sabe que suas apresentações são marcadas pela energia em estado bruto e o show no festival Caramelo não foi diferente. A presença de Felipe Cordeiro, como convidado especial, foi a cereja do bolo de um show marcado pela sinergia e pela profusão de ritmos latinos que soam como um passeio pela América.




Alma Boêmia


Na sequência, foi a vez de Toninho Geraes trazer o lado boêmio do samba para Belo Horizonte. Ícone das rodas cariocas, o mineiro radicado no Rio de Janeiro é compositor de mão cheia e tem parcerias do quilate de Roberta Sá, Zeca Pagodinho e Martinho da Vila.


No show, o músico passou a limpo sua carreira, trazendo canções de diversos álbuns, mas privilegiou o repertório presente em Preceito (2009), seu disco mais celebrado. De lá, vieram canções como "Alma Boêmia", "Oxossi" e "Seu Balancê" que foram muito bem recebidas pelo público.




Do Fundo do Nosso Quintal


Jorge Aragão é um dos maiores patrimônios da música popular brasileira. Sem qualquer exagero. Com carreira iniciada no final dos anos 70 (período em que fez parte do lendário Fundo de Quintal), Aragão é cantautor de fina estirpe e criou canções que atravessaram gerações. Não à toa o músico é considerado por muitos como o "poeta do samba".


Mesmo com a saúde debilitada, segundo o próprio artista, em virtude de um tratamento de câncer, Jorge fez toda a apresentação de pé. Entre uma canção e outra, ele buscou interagir com o público presente ora contando histórias de sua trajetória, ora tecendo elogios a Marcelo D2 e Djonga que se apresentariam logo mais.



Sua apresentação é um passeio pela história do samba e foi ovacionada do início ao fim. Hinos como "Lucidez", "Papel de Pão", "Vou Festejar", "Coisinha do Pai" (ambas eternizadas por Beth Carvalho) e "Identidade" foram alguns dos que figuraram no set e causaram comoção do público presente.



A Reza do Samba


A apresentação de Moacyr Luz no festival foi uma rara oportunidade para o público mineiro ver de perto uma das rodas de samba mais tradicionais do Brasil: o samba do trabalhador. A roda acontece todas às segundas-feiras no Renascença Clube, lendária casa carioca, localizada no Andaraí.


Escudado por uma senhora banda de apoio, Moacyr trouxe ao festival canções que foram eternizadas por parceiros como Zeca Pagodinho ("Cabô, Meu Pai", "Vida da Minha Vida"), Aldir Blanc ("Pra que Pedir Perdão?") e Beth Carvalho ("Estranhou O Quê?).



Durante a apresentação, o músico fez questão de demonstrar sua felicidade em participar do festival, pois estava cercado amigos. Um detalhe que contribuiu para que o show se transformasse numa autêntica celebração do samba tradicional.



A Maldição do Samba


Marcelo D2 foi uma das atrações mais esperadas do festival. O músico carioca veio à BH para divulgar Iboru, seu recente e elogiado disco. Conciliando tradição e modernidade, em seu novo disco e turnê o músico consegue, mais uma vez, promover um novo olhar para o universo do samba ao conciliar beats do rap com instrumentos tradicionais do gênero.



O setlist privilegiou o repertório presente no mais recente álbum. Nesse quesito faixas como o single "Povo de Fé", "Até Clarear", "Tambor de Aço" e "Kalundu" ganharam destaque e foram muito bem recebidas. Para além de Iború, D2 resgatou de seu repertório faixas de trabalhos anteriores como "Desabafo", "1967" e "Qual É?" que ganharam novos arranjos, condizentes com a atmosfera criada para o novo show.


Em forma de tributo aos bambas do samba, D2 e banda revisitaram clássicos de artistas como Jorge Aragão ("Lucidez"), "Maneiras" (Zeca Pagodinho"), "Zé do Caroço" (Leci Brandão), "Meu Nome é Favela" (Arlindo Cruz) que contou com a participação do cantor carioca Marcelinho Moreira.


Na reta final, um dos momentos de cartase coletiva: durante "Água de Chuva no Mar" (de Beth Carvalho) Luiza Machado, esposa de D2, assumiu os vocais. A produtora, atualmente, é integrante da banda de apoio e assume parte das vozes de apoio.




Pagode Puro


Péricles é hoje um dos fenômenos da música popular brasileira. Uma de suas maiores virtudes é a sua versatilidade musical que vai muito além dos gêneros os quais geralmente é associado: samba e pagode.


Tal como um crooner, ao vivo ele é acompanhado por uma senhora banda de apoio. Isso confere ao cantor a devida liberdade para que sua versátil voz transite entre canções dos mais variados estilos, indo do soul ao axé. O set abrangente primou por canções próprias ("Supera", "Eu Te Amo", "Ainda Me Iludo") e versões para clássicos como "Stand By Me" (Ben E. King) e "Mal Acostumado" (Araketu).



Carismático, "Pericão" se comunicou com o público de forma constante. Disse o quão feliz se sentia por estar no festival ao lado de artistas que tanto admira. Sobre D2, inclusive, o músico foi além ao afirmar que ficou impressionado com a performance do artista carioca.



Voz Ativa


Anunciado como atração especial na semana do evento, a presença de Djonga é sempre eletrizante. Na primeira edição do Festival Caramelo não foi diferente.


Quem resistiu à batalha de mais de 10 horas de programação foi agraciado pelo encontro de gerações do rap promovido entre o lendário DJ KL Jay (Racionais) e o mineiro Djonga.


Num autêntico encontro entre criador e criatura, a sintonia de Djonga e KL Jay foi enorme, a exemplo da execução do hino "Olho de Tigre" (Djonga) que, literalmente, colocou a casa abaixo retirando os últimos resquícios de energia do público presente.




Avaliação Final

O Festival Caramelo acertou em cheio ao apostar numa programação que reuniu artistas da velha guarda e novos projetos. Conciliar ritmos distintos como o rap, o samba e latinidades num mesmo evento, provou ser uma ótima estratégia que pode vir a ditar uma tendência. Os organizadores souberam explorar de forma responsável a infraestrutura da Serraria Souza Pinto, oferecendo conforto, segurança e acessibilidade aos presentes.




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