Papangu supera público previsto e toca para expressivo contingente de fãs em BH
No show da Papangu, a calmaria não avisa que está prestes a acabar. A banda paraibana transita entre a música brasileira (principalmente, de sotaque nordestino), o rock progressivo, o post-rock e o metal extremo, mas nem sempre prepara o caminho de um território ao outro. Às vezes, a passagem é abrupta, e a próxima explosão chega como um susto - dos bons. Foi nessa instabilidade, capaz de levar o público da contemplação ao mosh em poucos instantes, que uma das bandas mais inventivas da cena contemporânea conquistou o público de Belo Horizonte no último domingo (27). A procura foi tão grande que o show, inicialmente previsto para o mezanino da Autêntica, acabou transferido para o palco principal, para deleite dos fãs.

Sim, havia muitos deles, formando uma plateia numerosa e bastante engajada. Em sua maioria jovens, provas-vivas da renovação de público do rock, os entusiastas vestiam camisetas e passavam pela banquinha de merch para comprar vinis e outros produtos antes do show. Durante a apresentação, cantavam as músicas, batiam cabeça e gritavam o nome da banda.
A Papangu abriu a apresentação com a etérea “Colosso” e emendou a suíte “Acende a Luz (1, 2, 3)”, um ótimo exemplo das variações de temperatura e de paisagem sonora que marcam o som do grupo. A melodia nordestina se abre em rompantes de metal extremo, atravessados pelo rock progressivo, sem que a banda pareça interessada em escolher um único caminho. O repertório alternou músicas do experimental “Lampião Rei” (2024) com faixas do elogiado “Celestial”, lançado em agosto deste ano, sobre o qual o grupo conversou com Phono em entrevista.

Um grande momento do show foi a execução de “Bode Expiatório”, laboratório instrumental alucinante que ganha outra dimensão no palco. A música passa por referências que vão de King Crimson a Hermeto Pascoal, entre tantas outras que aparecem e se misturam sem pedir licença. O vocalista e tecladista Rodolfo Salgueiro contou que a Papangu (que não tem costume de usar setlists pré-definidos) se esqueceu de tocar a faixa no dia anterior, em um show que fizeram junto à icônica banda pernambucana Ave Sangria, no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Que bom que, em BH, não tivemos esse azar!

Na sequência, vieram “Oferenda no Alguidar” e “Boitatá”. Esta última perdeu parte do impacto pela falta de graves na guitarra. Em certo momento, Rodolfo trocou a letra do refrão por “Lula lá, Lula lá”, fazendo jus ao vermelho do boné e da bermuda que vestia, e marcando o posicionamento político do grupo sem interromper o clima de festa. Com “São Francisco”, única faixa do pesado “Holoceno” (2021), o metal acelerou a pista e fez abrir uma roda entre os mais empolgados. Depois, a banda fez uma breve versão de “Para Lennon e McCartney”, de Milton Nascimento, em homenagem ao público mineiro.

Em alguns trechos da apresentação, a energia do grupo parecia baixar um pouco, talvez também pelo clima de domingo à noite, mas faixas como “Mau Olhado” e “Afirmação”, de “Celestial”, reacenderam o clima e devolveram a pressão ao show. O som da casa, em geral, estava muito bom, embora alguns desequilíbrios tenham incomodado: os graves da bateria embolavam em certos momentos, enquanto as guitarras tinham volumes que pareciam desregulados - a de Pedro Francisco, alta demais; a de Hector Ruslan, muito baixa.

Agora, uma coisa é fato: como os caras tocam! A criatividade do baterista George Alexandria é um show à parte. O músico impressiona com sua técnica de pedal duplo e sua versatilidade. Pedro Francisco é um guitarrista fantástico, além de flautista e percussionista, que parece dividir a batuta de maestro das jams com Rodolfo, que segura as melodias com seu teclado de rock progressivo e sua voz cristalina. Já o baixista Marco Mayer marca o tempo com cavalgadas no baixo, segurando a cozinha junto à guitarra de Hector, responsável pelos vocais guturais do grupo, quando em suas empreitadas metal.

O encerramento com “Calado (de Olho)” foi uma ótima escolha - é uma das melhores músicas da banda, na minha opinião, e terminou a noite deixando evidente que a banda já tem público cativo para voltar a Belo Horizonte sem demorar tanto. Vai que “o agora é tua voz”, Papangu!

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